Ceni se despede do futebol em amistoso com casa cheia no Morumbi

Ceni se despede do futebol em amistoso com casa cheia no Morumbi

Raí, Ronaldão e Ceni levantaram as taças dos Mundiais são-paulinos (Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)

São-paulino, aposto que um dia, mergulhado em uma daquelas viagens que só o mais fanático torcedor pode ter, você imaginou o Morumbi revivendo as melhores lembranças do tricolor. E como Rogério Ceni é, de fato, um M1TO, resolveu proporcionar essa mistura de sonhos na noite desta sexta-feira, tudo de uma vez. Foi assim, em um enredo distante até para os melhores escritores, que os campeões do mundo de 2005 golearam os campeões de 1992 e 1993 por 5 a 3 no dia que ficará eternizado pelo adeus do camisa 01 aos gramados.

Gastar de R$ 90 a R$ 320 não foi nenhum empecilho para que a torcida pudesse ver cada desejo íntimo se concretizar como mágica no Morumbi. Apinhado, com bandeirões e sinalizadores, o estádio também se viu realizado e saudosista. Os últimos passos de Ceni no gramado que aprendeu a cuidar como lar foram seguidos por olhos marejados e coros embargados. Até que o primeiro grito de gol, logo no segundo minuto de jogo, foi liberado: pivô de Aloísio para Júnior cruzar e Amoroso marcar golaço de peito.

Os campeões de 2005, favorecidos pela forma física ainda em dia, começaram a partida com o gás e a disposição que tanto marcaram o elenco de uma década atrás. Assim, ampliaram o placar com o ovacionado Aloísio Chulapa, que travaria duelo curioso com Zetti. O ex-goleiro, mentor do protagonista da noite, fez grandes defesas diante do centroavante e ouviu a torcida até cobrar o técnico Dunga por convocações na Seleção Brasileira. Também pudera: quando 2005 vencia por 3 a 1 (Cafu descontou, mas Josué ampliou), os veteranos ganharam pênalti sofrido por Cafu. Diante de pedidos unânimes, Zetti foi à cal e converteu com estilo para marcar seu primeiro gol pelo São Paulo, 19 anos após deixar o clube.

Entenderam aquela história de sonhos impossíveis de torcedor? Pois é, o Morumbi todo sentiu isso. Até o dono da noite! Rogério Ceni olhou para a volta vagarosa (vamos acreditar que nada foi combinado, ok?) do antecessor e arriscou chute do meio de campo. A bola, teimosa que só, quicou na pequena área e passou por cima da meta amigo-adversária. Era como se a casa são-paulina fosse um parque de diversões em loop eterno nas melhores e mais saborosas lembranças. Quer mais? A gente conta!

No segundo tempo, 2005 vencia por 4 a 2 (Thiago Ribeiro aumentou) e o árbitro Benito Archundia, responsável por apitar a final do Mundial com o Liverpool, apontou falta pela direita do ataque de 1992 e 1993. Não houve um torcedor que não reparasse na semelhança da posição da falta com o lance genial convertido por Raí em lance ensaiado com Cafu no Mundial de 1992, diante do Barcelona. Como narrou Osmar Santos, "Raí, pra Cafu, pra Raí, pro gol e que g...". É, ok, nem tudo foi perfeito, e o chute do Terror do Morumbi carimbou o travessão.

Cafu roubou a cena dos técnicos da noite com mais um gol. Muricy Ramalho e o filho de seu Mestre Telê Santana, Renê, tentavam compensar o cansaço dos ídolos veteranos da década de 1990. Do outro lado, Paulo Autuori e Milton Cruz armavam as estratégias para seguir vencendo, mesmo que tenham tirado o uruguaio Diego Lugano para desespero da torcida que pedia sua volta ao São Paulo. Passaram Richarlyson, Souza, Edcarlos, Fabão, Mineiro, Josué, Müller, Pintado, Doriva, Jura, Adilson... E até Guilherme, hoje técnico, lesionou o joelho. Mais de 40 campeões mundiais reunidos por uma só causa.

A nobre causa, aliás, talvez tenha sido o único princípio de pesadelo da noite. Afinal, era preciso se despedir do sonho de 25 anos de vida, obra, carreira e alma de Rogério Ceni e São Paulo juntos. O Mito, de costas curvadas e pernas arqueadas, trocou o gol pela linha ainda no primeiro tempo. Enquanto Bosco revivia os dias de reserva bem utilizado, o ídolo brincava com os amigos que fez e com os quais foi mais feliz. Correu, distribuiu passes, arriscou o gol que Pelé não fez e cumpriu sua maior sina pela última vez.

Em pênalti no gol do fundo do Morumbi, de frente para a arquibancada laranja, milhares de flashes, acompanhados daqueles mesmos olhos marejados e coros embargados, Rogério Ceni se encontrou com as redes. A bola beijou a meta em seu canto esquerdo, onde tantas vezes se abraçou com gol decisivos e defesas fundamentais. Ali, naquele canto, uma história foi concluída com o maior êxito possível, em uma noite de sonhos reais, de realidade fantasiosa. O atleta se vai, o Mito fica. E ficará, a pedido de Rogério, eternizado em suas cinzas no Morumbi. Mas, vem cá, melhor deixar isso para mais tarde, bem mais tarde.

Diário Catarinense

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