"Sei que a senhora não tem confiança em mim", diz Temer em carta a Dilma

Foto: DIDA SAMPAIO / ESTADÃO CONTEÚDO

O vice-presidente da República, Michel Temer, enviou carta à presidente Dilma Rousseff em que aponta "fatos reveladores" da desconfiança que o governo possui em relação a ele e ao PMDB. Na carta, publicada na íntegra no blog de Jorge Bastos Moreno, do jornal O Globo, Temer diz se tratar de um "desabafo que já deveria ter feito há muito tempo".

"Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção", diz o vice-presidente no documento, segundo o jornalista.

A carta começa com a citação em latim "Verba volant, scripta manent", que significa "As palavras voam, os escritos permanecem".

Em seguida, Temer diz acreditar ser desnecessário "alardear publicamente a sua lealdade" à presidente, mas alega que sempre teve "ciência da absoluta desconfiança" de Dilma "e do seu entorno em relação" a ele e ao PMDB. "Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo", argumenta. "Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice."

Temer também ressalta que tem "mantido a unidade do PMDB apoiando" o "governo usando o prestígio político que" tem "advindo da credibilidade e do respeito" que adquiriu no partido. Isso tudo, segundo o vice-presidente, não gerou confiança nele, pelo contrário: "gera desconfiança e menosprezo do governo".

Após listar onze episódios nos quais, segundo ele, a desconfiança de Dilma em relação ao vice-presidente e ao PMDB se mostrou evidente, Temer cita a instabilidade política e econômica pela qual o país atravessa. "Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais".

Temer nega rompimento

Por meio do perfil da assessoria de imprensa da Vice-Presidência da República, Temer fez um pronunciamento oficial sobre o teor da carta. Segundo o peemedebista, Temer optou por redigir o documento após tomar conhecimento de que Dilma pretendia procurá-lo para conversar.

Temer, no entanto, nega que a carta simbolize um rompimento entre os partidos ou dele com o governo: "Ele rememorou fatos ocorridos nestes últimos cinco anos, mas somente sob a ótica do debate da confiança que deve permear a relação entre agentes públicos responsáveis pelo país".

Ainda por meio do Twitter, a assessoria de Temer confirmou que a carta foi enviada em "caráter pessoal" a Dilma, e que o vice-presidente se surpreendeu com a divulgação do texto, "em face da confidencialidade". Ainda segundo os assessores, o vice exortou à reunificação do país, "como já o tem feito em pronunciamentos anteriores".

Impeachment tem "lastro jurídico"

Após a divulgação do teor da carta, Temer concedeu entrevista ao jornalista Jorge Bastos Moreno, de o Globo, na qual se disse surpreso com o "fato gravíssimo de o Palácio (do Planalto) ter divulgado uma carta confidencial". De acordo com o jornalista, Temer reclamou também de outros episódios em que, na avaliação dele, os ministros Edinho Silva e Jaques Wagner "divulgaram versões equivocadas" a seu respeito, o deixando "mal jurídica e politicamente". 

— Eu havia sido comunicado pelo Eduardo Cunha que ele acolheria o pedido de impeachment. Reconheci seu direito de fazê-lo e depois o ministro Jaques Wagner colocou na minha boca a afirmação de que a decisão não tinha lastro jurídico. Constrangido, tive que desmenti-lo. O acolhimento tem sim lastro jurídico — disse o vice-presidente.

Dilma havia garantido confiança em Temer

Pela manhã, Dilma disse não ver motivos para desconfiar de Temer, "um milímetro". O encontro entre os dois, previsto por ela, não deve mais ocorrer nesta segunda. Temer desembarcou em Brasília pouco antes das 21h, após passar o fim de semana em São Paulo, e está reunido no Palácio do Jaburu com lideranças do PMDB como o  presidente da Fundação Ulysses Guimarães (FUG), Moreira Franco, entidade acadêmica ligada ao partido.

Até o momento, a secretaria de imprensa da Presidência não confirma o recebimento da carta pelo gabinete de Dilma. Ainda de acordo com a assessoria da Vice-Presidência, Temer manterá "a discussão pessoal privada no campo privado".

Zero Hora, com agências

Diário Catarinense

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