Governo deflagra "operação de guerra" para salvar mandato de Dilma

Governo deflagra

Foto: Guilherme Mazui / Agência RBS

Quando o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciou o andamento do processo de impeachment, o Palácio do Planalto deflagrou uma operação de guerra para salvar mandato de Dilma Rousseff.

A estratégia tem diferentes frentes. Na Câmara, o PT quer influenciar na escolha dos representantes da comissão especial que serão apontados por outras siglas. O governo e a bancada petista estudam questionar no Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura da comissão especial. No plano ideal, a ameaça de afastamento estará sepultada ainda em dezembro. Em outras projeções, seria derrubada em março.

Na estratégia retórica do governo, a defesa será feita com a tese do “golpismo” e analogias ao golpe militar de 1964. Outros argumentos reproduzidos desde a noite desta quarta-feira apontam para “revanche” e “vingança” de Cunha, que acenou com o afastamento para salvar seu mandato por quebra de decoro. Dilma vai apostar na comparação das biografias, com o discurso de que não há suspeita de corrupção contra ela.

— Meu passado e meu presente atestam minha idoneidade — disse a presidente em pronunciamento.

O PT e os aliados vão trabalhar para desgastar ainda mais a imagem do peemedebista, denunciando ao Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção na Lava-Jato. Aumentará a pressão pelo afastamento dele da presidência, na tese de que usa o cargo a seu favor. O PT conta com militância e movimentos sociais nas redes e nas ruas.

O racha dos últimos dias entre governo e PT terá de ser revertido. Partido e palácio pregam unidade. O pronunciamento da presidente, escoltada por seus ministros, tentou dar essa impressão de coesão.

O anúncio de Cunha provocou um tsunami de perplexidade no Congresso. Os movimentos do peemedebista eram monitorados, mas acreditava-se que ele não “queimaria sua única bala”, como resumiam deputados petistas.

A decisão de avançar o processo de impeachment foi comunicada em coletiva no Salão Verde, enquanto deputados e senadores aprovavam no plenário, logo ao lado, a revisão da meta fiscal. Parlamentares de diferentes partidos deixaram o plenário correndo para ouvir a entrevista do presidente. Petistas catatônicos dividam espaço com oposicionistas com sorrisos debochados nos rostos.

No Planalto, o ministro Jaques Wagner (Casa Civil) soube durante a tarde que uma coletiva havia sido marcada para Cunha anunciar o impeachment. Do quarto andar do palácio, desceu ao terceiro para comunicar Dilma. O grupo viu pela TV a coletiva de Cunha e convocou uma reunião de emergência com ministros, na qual foi esboçada a estratégia de defesa e o discurso feito pela presidente. O ex-presidente Lula também já estava avisado e é considerado peça chave para incitar a militância.

Ao telefone, Dilma conversou com o vice Michel Temer, que também fora avisado antes do anúncio. Os relatos são de que foi uma fala de conforto e de aliança pela derrubada do impeachment.

No palácio, corria a conclusão de que o revide foi proporcionado pela posição da bancada petista na Câmara, que pressionou, insuflada pelo presidente do PT, Rui Falcão, para que os três membros do partido no Conselho Ética votassem pela admissibilidade do processo por quebra de decoro contra Cunha.

— Ele estava há meses ameaçando. Não foi por falta de aviso — dizia um petista, a balançar a cabeça.

Os ministros Jaques Wagner (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) insistiam no acordo tácito com Cunha, tese derrotada dentro do partido. Após a reunião da bancada, o palácio tentou conversar com Cunha e sinalizar que até a próxima semana, quando seu caso deve ser votado no conselho, seria possível demover os deputados. Não foi suficiente.

Aliados de Wagner e Berzoini relatam que eles já estavam cansados com as chantagens de Cunha. Depois do pronunciamento de Dilma, Parlamentares e assessores davam o tom do novo momento da República, em uma frase repetida à exaustão:

— Agora é guerra.

Diário Catarinense 

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