Governo do Espírito Santo vê motivação política em ação de PMs

Governo do Espírito Santo vê motivação política em ação de PMs

Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

A greve que retirou os policiais militares das ruas e paralisou o Espírito Santo vai além das questões salariais. Uma cirurgia às pressas do governador Paulo Hartung (PMDB) para retirada de um tumor, disputas políticas entre aliados e rivais do peemedebista, de olho na próxima eleição, e sua relação desgastada com a corporação contribuíram para o colapso da segurança pública vivido há uma semana pelos capixabas.

Linha dura nas negociações desde o início da crise, o governo estadual vê mais do que uma estratégia por reposição salarial do movimento de mulheres, mães e filhas de PMs, que bloqueiam as entradas dos batalhões. Apoiada nos bastidores por oficiais e parlamentares, a ação também teria a intenção de enfraquecer Hartung, um economista de 59 anos que comanda o Espírito Santo pelo terceiro mandato sob forte discurso de responsabilidade fiscal. Com salários de servidores em dia, apesar das reclamações das categorias que não recebem reajustes, sua gestão é alvo de elogios em Brasília.

— Tem gente querendo destruir nossa imagem pensando em eleições — disparou na quarta-feira Cesar Colnago, vice-governador que está à frente do Estado desde domingo em razão da licença média de Hartung.

A área de inteligência do governo monitorava uma eventual tentativa de aquartelamento no Carnaval, ciente da insatisfação da PMs com o soldo e as condições de trabalho. Com o suposto vazamento da informação de que Hartung foi na sexta-feira a São Paulo para tirar o tumor da bexiga, os protestos teriam sido antecipados. A partir do sábado, o movimento ganhou o Estado, que ficou sem policiamento nas ruas, abrindo espaço para a série de saques, assaltos e homicídios.

Ex-deputado, ex-senador e ex-prefeito de Vitória, Hartung, ou PH, é reconhecido por sua base e por seus desafetos como um exímio e exigente gestor e um político de inteligência e sagacidade acima da média. São famosos os relatos de que desperta às 5h, lê todos os jornais e começa a distribuir demandas e broncas em secretários. Por outro lado, os adjetivos "autoritário", "intransigente" e "vingativo" também são usados para descrever o governador, chamado de "imperador" pelos inimigos.

Ruas da Grande Vitória são patrulhadas pelas Forças Armadas durante paralisação da Polícia MilitarFoto: Dayana Souza / Especial

De sucessor a rival

Hartung administrou o Estado de 2003 a 2010. Quando assumiu, o Espírito Santo sentia os impactos de um escândalo que apontou a presença do crime organizado nos Três Poderes. Já em 2010, PH ostentava 81% de aprovação, popularidade que ajudou a eleger seu sucessor, Renato Casagrande (PSB), com quem rompeu em 2014. Em uma campanha dura, na qual acusou o socialista de desorganizar as contas capixabas, venceu no primeiro turno, regressando ao Palácio Anchieta. Casagrande, aliás, tinha melhor relação com a PM.

— Casão conversava conosco. Com o Hartung não tem diálogo — afirma um sargento, que prefere não se identificar.

O grupo político de Casagrande seria um dos destinatários do recado dado por Colnago, mas não o único. A mensagem também mirou o deputado estadual Josias da Vitória (PDT), cabo da reserva da PM, e a senadora Rose de Freitas (PMDB-ES), colega de partido de Hartung, mas distante dele. Secretário estadual de Segurança, André Garcia reclamou publicamente do que classificou como sabotagem. Segundo ele, na terça-feira, um acordo com as mulheres estaria encaminhado, quando surgiu uma reunião realizada na Assembleia Legislativa, com dezenas de parlamentares, Josias e Rose entre eles, e famílias dos policiais. Teria ocorrido um recuo depois do encontro. Josias não conversou com Zero Hora e Rose negou a interferência.

— Tentei ser uma mediadora, porque recebi muitos pedidos para ajudar a encontrar uma saída. O Estado está parado. Nada surtiu efeito, me sinto impotente — diz.

Interlocutores de Hartung citam Rose como eventual interessada em concorrer ao Palácio Achieta, já que o governador fala em voos nacionais: cabeça de chapa ou vice em uma eleição presidencial. A ameaça de deixar o PMDB teria a intenção de garantir o espaço no partido ou em outra sigla — um possível retorno ao PSDB e o PSD são opções ventiladas.

A crise da segurança preocupa Hartung, que já conseguiu driblar um arranhão na biografia. Em 2010, o Espírito Santo foi denunciado à ONU pelas condições nas cadeias, com episódios de esquartejamento entre os presos. Um programa de investimento, que passou por Casagrande e Hartung, ampliou vagas, apostou na ressocialização e tornou-se modelo no país.

Para enfrentar a crise da segurança em andamento, o peemedebista aposta que sua postura firme contra uma greve que viola a Constituição servirá de exemplo. Com receio de que o movimento se replique em outros Estados, o governo federal já garantiu mais de 3,5 mil militares nas ruas da Grande Vitória e pretende manter esse apoio. Assim, não surpreendeu a decisão de Hartung de não conceder o reajuste e de indiciar por revolta mais de 700 PMs, ameaçados de expulsão. A senha de Hartung foi dada em entrevista à Globonews. Irritado com a insubordinação, prometeu uma reestruturação da Polícia Militar.

— No que depender de mim, não sobrará pedra sobre pedra — disse Hartung.

Diário Catarrinense 

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